Qualquer filme que resgate essas discussões paternas ou de família sempre mexem comigo. Essas coisas do admirável mundo bizarro novo também. É acho que estou em fase de crescimento crianças. A vida inteira assim.

A Superma Felicidade, mais que seu enredo, me faz rever algumas questões previamente. A primeira delas é que eu realmente renego Arnaldo Jabor. Suas críticas ao rock and roll de forma babaca, seu reacionarismo político expresso nas crônicas do Jornal da Globo são no mínimo babaquices ou má intenção mesmo. De fato, vamos esquecer neste texto estas opiniões do autor e algumas minhas enquanto autor sobre o autor. Sem trocadilhos imbecis o que eu quero dizer é que façamos uma trégua com o babaca do Jabor.
Primeiro vamos a proposta, a forma.
Quem já assistiu Felini certamente se sente agredido com a forma de montagem do universo da mensancene de A Suprema Felicidade. O extrapolar, a linguagem do absurso é tão pueril...superficial quanto a maioria das produções Globo Filmes. Ok, é a tal da busca pelo público. Mas essas coisas acabam soando meio com "introdução didática ao mundo audiovisual" e não permitem ao cidadão descobrir por si só através dos sentidos por exemplo. Empirismo cadê pessoal? Vamos entender que o público pode ser destreinado mas não é burro. Essa montagem de universo ralo felininiano é notado no esteriótipo dos personagens: avô cuidadoso e filosófico, Elke Maravilha como avó de alguém, prostitutas gordas peitudas, e tantos outros. Superado tudo isso pelo menos nota-se uma vontade de fazer um cinema não linear e pouco importam alguns erros de continuidade. A forma de contar a história é uma auto-sabotagem interessante e provocativa. É aquele tipo de filme que você sabe que grande parte do público vai detestar (certamente a maior parte do público que concorda com as coisas que eu tanto critiquei do Jabor no início do texto).

Agora vamos ao miolo, o conteúdo.
“Nada é só bom”. Em um bolo recheado de frases bonitas essa é uma das que eu destaco como ponto de encontro no filme. Paralela a ela tem a vida de uma dançarina do Clube Eldorado que de noite tem a sua vida "secreta", vestida de Merelyn e de dia vive sua vida "real" onde nem é loira e mora com a mãe e com o cafetão das duas. Nada é tão ruim assim. Paulo, personagem fundamental do filme prejudicado pelas atuações em duas fazes no filme (8 e 19 anos), tem o pai piloto, que passa de herói a sujeito frustrado por não poder pilotar aviões a jato; Uma mãe que construiu a vida em torno de um casamento onde o marido frustrado busca refugio em dançarinas de cabaré e não a deixa trabalhar nem ter nenhuma forma de independência por puro medo, ciúme e insegurança; Paulo encontra no avô uma figura guia filosófico social que lhe ensina exatamente que nada é só bom e que por isso nada é só ruim "Ninguém é feliz. Com sorte, a gente é alegre".

Ao mesmo tempo que a suprema felicidade jamais é alcançada ela está na nossa cara. O filme certamente questiona as certezas que temos. Enquanto o Avô (Noel) insiste em ver a beleza da Vida a Mãe de Paulo (Sofia) insiste em viver um casamento falido e fadado ao fracasso. Paulo grita aos berros com seu amigo Cabeça uma negação de todos ao seu redor "Eu não quero ser como essa gente". Ao mesmo tempo a personagem vai descobrindo que é no caos que todos são felizes. O relacionamento dos pais é em primeiro plano uma provocação a como é constituída uma família, onde o sonho individual se perde em detrimento de um bem maior coletivo que, nesse caso específico, não agrada a nenhum dos dois.

Por outro lado estou farto de ver gente que, como eu, vive em busca de perfeição das coisas. Passamos mais tempo procurando o que nos faz feliz de verdade que deixamos de aproveitar o intervalo entre o frio na barriga e a certeza. E quando estamos certos de algo, já perdemos o tempo da coisa. A Suprema Felicidade para Noel foram 10 minutos esperando pelo bonde certo dia. Para Paulo talvez tenha sido o dia em que pegou Merelyn, depois do trabalho na Eldorado, perder sua virgindade com ele no carro, ou no dia em que saiu para passearem a tarde e ele pagou para ela tentar dizer que eles estavam namorando e que o amava. O desejo é um caminho sem volta, é o que une o homem ao viver. Querer melhorar não é muito distante da busca pela felicidade com uma escavadeira que lhe afunda mais e mais. A arte das coisas está onde saber parar. Nenhum relacionamento vai ser perfeito nunca, mesmo que a gente passe a vida procurando, a vida não é como um sapato que você comprar na cor que você quer e no tamanho que lhe deixe mais confortável. Nesse intervalo entre procurar, abordar e se relacionar existem uma série de combinações que quase sempre estão fadadas a dar errado. Enquanto um delirante noel em seu momento auge, prestes a morrer aproveita seus ultimos momentos gritando “Hoje é sábado, hoje é sábado” um desacreditado comprador de revistas e livros diz "O sábado é uma ilusão". Esse tapa na cara de Noel, serve ao espectador mais ligado no filme para que se viva de segunda a sexta também “A vida gosta de quem gosta dela”.
Me aflinge gente que vive a vida como se tivesse um mega Photoshop com efeitos em tempo real, viver o dia-a-dia com ou sem bizarrices já é por demais digno. Já dá um enorme trabalho. Me agrada as pessoas que aceitam a realidade e lutam para mudá-la, sem maquiagem. Sem virar comercial de sabão em pó. Termino o texto com a frase de inicio do filme do Drumound: “As coisas findas, mais que lindas, essas ficarão”.
http://www.adorocinema.com/filmes/a-suprema-felicidade/#trailer




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