
Meu pai e meu avô tinham mais em comum do que imaginavam. Os dois gostavam de uma boa farra, mas o meu avô bebia menos (talvez por isso tenha vivido mais), ah sim...meu pai fumava muito (meu avô não se arriscava a esse vício). Além dessas coisas eles tinham um talento e um prazer comum com as cartas, todo fim de ano era o Campeonato Mundial de Baralho na casa dos meus avós.
O meu pai e o meu avô em questão, que era o pai da minha mãe e não do meu pai, tinham por um tempo, talvez a melhor parte da minha infância algo a mais em comum...a bicicleta vermelha.
O ano todo lá em Xingó o meu pai trabalhava perto de casa e ia todo dia trabalhar de bicicleta, uma dessas barras circulares vermelhas, bem parecida mas inferior a do meu avô (imagino eu). Por um tempo, todo sábado, eu ia "passear" com o meu pai no trabalho dele. Besta que eu era queria sempre ir na barra como seu eu fosse pilotando a bicicleta. Enquanto o Seu Jurdino trabalhava eu pegava a magrela e ia dar uma volta pela Vila Xingó. Eu achava uma aventura enorme.

Já o meu avô, quando eu ia passar o final do ano lá no Maranhão (São João dos Patos), em uns dois anos entre o fim dos anos 80 e começo dos 90, ele tomava conta de um bar, foi meio que arrendado o bar de um amigo, um senhor chamado Simão. Engraçado isso o meu avô se chamava Joaquim Adão de Souza Tavares e o seu amigo Simão. Sim, as minhas piadas sem graça devem ser de origem portuguesa. O meu vô me levava pra passear com ele de bicicleta vermelha. E lá ia eu pro bar.
Sem querer ele e meu pai me ensinavam coisas da vida que, mesmo com a minha mãe e as minhas irmãs e o resto da minha família dizendo que eu pouco valorizo eles...me fizeram montar o meu caráter e criar valores.
Com o meu pai eu aprendi a valorizar a família, e me stressar pra não faltar nada pros meus filhos e a cuidar bem, mesmo que vacile vez ou outra, da pessoa com a qual você vive. E a nuna trair ninguém. Principalmente em relacionamentos. Quase todos os amigos dos meus pais nos anos 80/90 traiam suas esposas ou tiveram filhos fora do casamento.
Com o meu avô eu aprendi a trabalhar, trabalhar e trabalhar. Aprendi a não ficar viciado em sinuca...e a não gostar tanto de bebida. OK OK OK...eu sei que essa parte eu não cumpri muito.

Tanto meu pai quanto o meu avô eram figuras populares, bem queridas e cheios de simpatizantes em suas respectivas cidades. Os dois se gostavam muito e o mundo certamente vai ser um lugar bem mais chato sem as intermináveis rodadas de baralho na casa dos meus avós no final do ano.
A noite passada eu sonhei que eu pedia pro meu pai pra ele falar com o povo lá do outro mundo pra deixar o meu vô ficar mais um tempo aqui com a gente....É Seu Jurdino, dessa vez não deu meu amor pro senhor me fazer esse favor. Mesmo assim eu amo o senhor um bocado pai.
Bem, se serve de consolo, se existe algum lugar pra ir depois de morrer...com certeza os dois devem estar andando lá onde for com suas respectivas biciletas vermelhas, cada qual com seu baralho procurando mais dois parceiros pra começar a jogatina.
Um beijo nos meus dois queridões. Eles também brincavam comigo de avião, mas isso é coisa pra outro post. Esse de hoje foi uma pequena homenagem ao meu pai que morreu em 2005 e ao meu avô que foi embora hoje.

A baixo um vídeo de uma banda do Sul chamada Pública. Bicicleta. Sem muito o que acrescentar.
www.youtube.com/watch?v=jOS3SX_80HY
"Bicicleta"
(Publica)
Comprei uma bicicleta, para ir viajar
Bicicleta na linha do horizonte, lá depois do mar
com um pouco de coragem, eu entro na viagem
com os amigos, com as garotas
A porta aberta e alguns dirão live for you toys
Eu comprei uma bicicleta para ir viajar
O céu está bonito, o espaço cintilante
Odisséia lunar
E eu nunca mais deixei de brincar com a bicicleta, eu nunca mais.
Entre portas e segredos, eu vou vivendo pro agora.
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